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5 de julho de 2017

A força bruta e a delicadeza

No dia em que Deus decidiu acabar com a Criação, Tereza decidiu limpar sua casa.

Ele convocou raios e poderes, conclamou potestades, utilizou as bombas nucleares e atômicas disponíveis, destravou a cadeia dos explosivos impossíveis, estimulou a fúria de terremotos e tornados. Ela se paramentou de lenço nos cabelos e avental, preparou água morna com sabão em pó, verificou se as vassouras e os panos de chão estavam em ordem, tirou do armário o aspirador de pó com potência suficiente para tragar qualquer volume de sujeira e reuniu diferentes tipos de detergente e alvejante.

Em algum lugar do mundo os vulcões começaram a ferver e a despejar sua lava, e o chão estremeceu de forma assustadora. Tereza começou tirando o pó das prateleiras e esfregando o rejunte dos azulejos do banheiro. Milhares de crianças, mães, avós, mulheres grávidas, maridos e pais de família — todos mortos em questão de segundos. O piso da cozinha ganhou novo brilho com a cera líquida que Tereza usou e, feliz com o resultado, cantou baixinho enquanto lustrava os talheres de prata, sem uso há muito tempo.

No lado oriental do planeta, populações inteiras se transformaram numa pasta vermelha e negra, e os mortos se confundiram com os quase mortos, aí incluídos todos os bichos e todas as florestas. Para eliminar a poeira da sala, Tereza usou o aspirador com determinação e ficou muito satisfeita quando viu que não tinha restado nem uma partícula de pó. Aspergiu o local com perfume de jasmim, seu preferido.

Deus, então, decidiu derreter as calotas polares de uma só vez. Num segundo, vários países desapareceram debaixo da água, e é fácil concluir que alguém terá muito trabalho para desenhar o novo mapa-múndi. Cheia de entusiasmo, Tereza limpou janelas, portas, batentes e rodapés. Usou um produto excelente para deixar os vidros brilhando, assim o sol poderia entrar em sua casa sem nenhum obstáculo. A luz e o calor do sol, que coisas abençoadas!

O velho irado e poderoso já não tinha muito mais o que fazer para consumar a destruição, talvez mandar um furacão aqui, uma tormenta de granizo ali, um tsunami acolá, quem sabe arrastar a água dos oceanos para os desertos, transferindo aridez e areia seca de um lugar para outro, ou então eliminar as coisas que ainda rastejavam pela superfície, ou até desfazer o que estava feito desde que o mundo era mundo. Tereza se apressou na hora de limpar a fachada, pois ainda teria que fazer o almoço e assar o pão. Ligou a mangueira e lavou toda a frente da casa, tirando a poeira acumulada nas paredes. Ficou impecável, e Tereza sorriu.

Uma coisinha mais, pensou Deus. Tereza pensou o mesmo, uma coisinha mais. No momento em que se preparava para mudar o sofá e as poltronas de lugar, ela sentiu um leve tremor sob os pés, que aumentou até se transformar num terremoto avassalador. Tropeçou na mesinha de centro, perdeu o equilíbrio e caiu, batendo com força a cabeça no chão. Sangrou muito, muito. Sua visão ficou enevoada e ela não conseguiu se levantar.

Agora sim, Deus considerou encerrada a sua obra de destruição, e Tereza morreu olhando para o aquário na estante, sentindo-se culpada por não ter alimentado os peixes.

 




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