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27 de junho de 2019

Gabo

Estão só os dois no quarto e a tarde cai. É uma despedida. Despedidas não são agradáveis, e esse pensamento atravessa a cabeça de ambos. Não são, mas às vezes são necessárias. Gabriel tenta se manter sereno e se movimenta com cuidado entre os móveis antigos: a cama com mosquiteiro, o criado-mudo, a poltrona, o mancebo, a escrivaninha e a máquina sobre ela. Segura uma xícara de chá quente numa das mãos. Vai até a janela, volta para o interior do cômodo, toma um gole comprido da bebida. Falam pouco: quase tudo já está dito e nada mais cabe. Os dois sabem: caber na vida é tarefa para os idiotas.

Gabriel conhece seu amigo à perfeição e sabe o que acontece dentro dele: neste exato instante há um turbilhão se agitando. Os dois se olham de quando em quando, um tentando se justificar e o outro aceitando as desculpas mudas. Esta é a última tarde que passarão juntos. A América Latina já tinha se encontrado consigo, a solidão crônica, identificada, e Macondo, ficado pequena para tanta grandeza. O gelo, ah, o gelo… Despedir-se foi decisão de Gabriel. A tarde continua caindo.

Duas horas depois o relógio anuncia que são seis. José Arcadio se levanta, olha para o amigo e baixa levemente a cabeça. Sorri, parece agradecer. Abre a porta e vai embora. Gabriel fica parado no meio do quarto, a xícara com chá pelo meio, e olha para a porta fechada. Calcula quanto tempo levará para que a silhueta do outro desapareça no horizonte. Sente tristeza, e sabe que isso já deixou de ser só literatura. Era a vida.

A tarde terminou de cair. Gabriel aproxima o rosto da janela e vê: chove, e a chuva é feita de pequenas flores amarelas. Olha para a escrivaninha e para a máquina de escrever sobre ela. Puxa a cadeira e senta-se. Começa a datilografar.

 




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