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16 de fevereiro de 2020

Gestos inúteis

A tarde boceja e borra a maquiagem do dia.

Tudo dorme, a modorra está posta.

Justo antes de se render ao próprio peso

e despejar sua raiva,

o céu arrisca um brilho de celofane

e o ar prende a própria respiração:

como a mãe que sai na ponta dos pés

do quarto do filho que finalmente dormiu.

 

Logo vai desabar. Ou não.

 

Como sói acontecer às coisas que se foram

e que não importam mais,

elas voltam, insistentes — elas, as coisas, as coisas mortas —,

para importunar, fazerem-se incômodas,

igual a uma bola colorida que sai do nada

e para diante dos nossos pés, aguardando o chute.

 

Essas coisas sempre voltam.

 

Acabo de romper com uma pedra

a tela entorpecente de líquido azul tremelicante do rio.

Foi um gesto inútil: não provoquei reação na água que corre por baixo,

indiferente ao que se passava na superfície,

mas me recordei do ignorante

que abriu a golpes de marreta sua televisão,

querendo a todo custo arrancar da tela azul

o homenzinho que gritava lá dentro.

 

Neste mundo há muitos gestos inúteis.

 




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