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16 de março de 2017

A grande cidade brasileira

A grande cidade brasileira, orgulhosa, finalmente atingiu sua meta: já possuía cinquenta milhões de automóveis em circulação. Quase mais ninguém andava a pé e por isso as calçadas foram suprimidas, por inúteis e por roubarem o espaço que agora só pertencia aos seus legítimos donos: os carros. O prefeito, para não ficar com a fama de autoritário, fez o favor de deixar algumas beiradas nas grandes avenidas, para aqueles pedestres inconvenientes que ainda insistiam em caminhar com as próprias pernas, num evidente gesto de negação do progresso.

Novos limites de velocidade foram estabelecidos para organizar a gigantesca frota de máquinas que agora havia na cidade, e não tinha dia da semana ou horário em que as ruas não estivessem coalhadas de automóveis, de todos os tamanhos, marcas, modelos e cores. As fábricas, como era de se esperar, não tardaram a perceber a nova realidade e as necessidades criadas a partir disso, e passaram a produzir veículos adaptados aos novos tempos. Agora já existem carros com banheiro, cozinha, sala de jantar, dormitório e closet. São comercializados por metro quadrado. Todo mundo achou tudo muito prático: as mulheres passaram a aproveitar o tempo no trânsito para finalmente se dedicarem à ioga; os homens faziam a barba e atualizavam o imposto de renda; as crianças terminavam a lição da escola e tinham tempo de sobra para o videogame.

O mundo inteiro comentou e comemorou o recorde atingido pela grande cidade brasileira. Tanto, que o fluxo de turistas aumentou consideravelmente. Todos queriam ver o fenômeno, único no mundo, de cinquenta milhões de automóveis em movimento num só município. É claro que a expressão “em movimento” é apenas isso: uma expressão. Os carros não se movimentavam mais que alguns centímetros em horas de congestionamento, e ir de um lugar a outro exigia paciência, cordialidade e espírito esportivo em doses exponenciais. Todos os habitantes, porém, se adaptaram com rapidez aos novos tempos e ficar horas sobre o asfalto deixou de ser um problema e ninguém mais se incomodava com isso.

Verdade seja dita, a atmosfera da cidade mudou muito. Se antes já era pesada, agora se tornou irrespirável devido à quantidade de gases emitidos pelas máquinas que passaram a lotar as ruas, avenidas e viadutos. Os turistas que chegaram na última madrugada depararam com uma cena de terror: motoristas e passageiros, homens, mulheres e crianças, jaziam de boca aberta sobre as poltronas dos automóveis, buscando o ar que já não havia mais na grande cidade brasileira. As autoridades tomaram um susto e estão pensando num método ligeiro de trazer de volta à vida toda essa gente morta.

 




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