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7 de abril de 2017

Há coisas nesta vida que a gente não esquece

Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos olham mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade. Nos últimos meses ela tem se dedicado à atividade de caminhar do quarto para a cozinha, passando pelo corredor e, de novo, da cozinha para o quarto, até que suas pernas lhe digam basta! A cada dia ela aguenta esse passeio mais vezes e suas panturrilhas estão bem fortalecidas pelo esforço. Gostaria de saber se algum maratonista faz tantos quilômetros por dia como minha mulher.

De início, tive pena dela e de seu esforço para vencer cada etapa da caminhada, mas agora vejo sua atividade com alegria, que maravilhosa sorte uma pessoa tem de se esquecer de tudo!, que felicidade é dar um passo sem ter a mais remota ideia de quantos já dera anteriormente e de quantos será capaz de dar no futuro!

Hoje me sentei no sofá disposto a esquecer algumas coisas também, talvez pelo enorme desejo que tenho de voltar a fazer algo em conjunto com minha mulher. Começo por esquecer sua doença e vejo seu passeio como aquilo que é — um passeio apenas. Um passeio que começa no quarto e termina na cozinha, e depois a volta para o quarto. Pode ser que, num momento raro, ela se detenha no corredor, olhe para mim e se aproxime para, ao meu lado no sofá, ver um pouco de televisão.

Também me esqueço de quem é essa mulher com quem divido a casa. Fico atento ao toc toc do andador na madeira do assoalho. Quando ela aparece no corredor, olho-a e vejo-a como se fosse a primeira vez, que mulher linda! Ela me olha, nos olhamos, e ela me fala, depois de anos de silêncio: João da Alegria, João, meu querido, há coisas nesta vida que a gente não esquece. Eu a ajudo a se sentar e ela põe sua mão debaixo da minha. Juntos olhamos para a tela à nossa frente.

 




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