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3 de abril de 2017

A história que vamos contar aos nossos filhos

E chegou o dia em que proibiram fazer amor. Argumentaram que, como a reprodução de nossa espécie estava totalmente garantida pelos avanços científicos, não havia mais motivo para sujar nosso corpo com atos impuros e secreções imundas. No começo, decidimos desafiar a lei e continuar com nossas atividades sexuais na intimidade de nosso quarto, até que começou a repressão. Entravam à noite na casa de todos os suspeitos de serem contrários ao artigo 370 da Nova Constituição para surpreendê-los em flagrante. Aconteceu conosco. Quebraram as vidraças de nossa casa, derrubaram portas, fomos fotografados nus e arrastados pelas ruas como marginais. Nos chamaram de pervertidos, de imorais, de revolucionários.

Muitos foram presos. Deram início aos interrogatórios, às delações, aos processos, às castrações, às esterilizações. As carícias foram proibidas, os beijos, os olhares. Nessa altura, nós, junto com muitos outros casais, conseguimos fugir das grandes cidades e a cada noite fazíamos amor nos banheiros dos aeroportos abandonados, nos carros estacionados nos becos, nos barcos encalhados nas praias, sobre o feno dos currais e em qualquer lugar coberto onde pudéssemos ter alguma privacidade. Inclusive aqui, debaixo dessa ponte, onde todos vocês nasceram e onde poderão continuar amando em liberdade.

 




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