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1 de fevereiro de 2016

Hortênsia no vermelho

vermelhoA boca de Hortênsia secou quando viu a silhueta do andarilho recortada contra o céu vermelho: sabia que algo diferente estava para acontecer naquela cidade de fim de mundo. Seu corpo sentiu um frêmito e ela sorriu levemente. Segurou o cabelo negro com as duas mãos e abriu bem os olhos: não queria perder detalhe. O casaco preto, o chapéu de feltro enterrado na cabeça, uma pequena mala na mão e o mistério: era muita novidade para um dia só. Hortênsia saboreava cada passo do estranho, que se aproximava da cidade como uma ameaça velada. Olhos atrás das janelas perscrutavam o forasteiro que andava mirando o chão.

O pai de Hortênsia, autoridade local, ofereceu ao homem comida e pouso: um prato de sopa e o paiol de milho para descansar. Quando a noite desceu, pôs os cartuchos na espingarda e a tranca na porta. Não gostava de surpresas.

No dia seguinte, antes que o sol se levantasse, a fumaça do paiol em chamas tomou conta da vizinhança. Nada ficou em pé. Do forasteiro, rastro algum além do chapéu de feltro, agora calcinado. A falta de vestígios do estranho após o fogo apagado confirmou o que todos desconfiavam: aquele sujeito não era deste mundo. Com o sinal da cruz feito várias vezes sobre o peito, davam graças pelo sumiço do desconhecido, Não nos castigue, ó Deus poderosíssimo e misericordioso. A lenda do forasteiro sobrenatural cresceu no mesmo ritmo que a barriga de Hortênsia.

Muitas luas depois, Hortênsia pariu um menino de cabelos vermelhos como fogo e, se alguma dúvida ainda houvesse no coração daquela gente, agora já não existia: o demônio em pessoa tinha visitado a cidade. Passaram a evitar Hortênsia e sua cria, a bruxa, pecadora desavergonhada que não merece clemência!, inclusive o pai, que nunca olhou para o neto.

Desde que se tornara mãe, Hortênsia deixou de falar. Só tinha olhos e cuidados para o pequeno. Passava as mãos nos cabelos vermelhos do bebê e sorria. No coração, a lembrança daquela noite: no paiol de milho, tirou calmamente o cigarro da boca do forasteiro para beijá-lo; abriu sua camisa e escondeu os dedos nos pelos vermelhos e espessos de seu peito. Fechou os olhos quando ele a puxou contra si.

Uma noite Hortênsia envolveu o bebê numa manta e foi embora da cidade, deixando para trás um lugar cheio de gente infeliz e maledicente, onde o céu às vezes se tingia de vermelho e todos se persignavam temendo o juízo divino. Ninguém tentou detê-la ou ir atrás dela, tampouco o pai. Lá, a vida, em poucos dias, voltou ao normal.

 




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1 de fevereiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos demônio, fogo, vermelho

               
              
            
                

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