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11 de julho de 2018

À imagem e semelhança de alguém

Era um adorador que não fazia distinção, cão carente e cego: adorava todos os deuses que se lhe apresentassem. Para ele, não havia deus que não merecesse suas preces e devoção. Conhecia de cor as orações dos mais diversos livros sagrados, rezava por todas as cartilhas religiosas, vindas elas do Oriente ou do Ocidente, dobrava os joelhos ante qualquer divindade e jurava prestar-lhe obediência e amor incondicional. Dedicava os dias a todos os cultos e isso fazia a sua alegria.

Um dia morreu, porque um dia a morte sempre chega, e com ele não foi diferente. Quando entrou no domínio das sombras e do ignorado, viu-se frente a frente com um Deus desconhecido, que não constava de nenhum livro que tivesse lido, nenhuma oração que tivesse recitado, nenhum louvor que tivesse cantado, nem era alguma imagem que tivesse venerado. Nada disso: era um Ser com aparência de poucos amigos e poucas palavras, estranho. Tão estranho que o fez tremer e entrar em pânico assim que Ele se aproximou, tomou-o entre as mãos e o amassou, retornando-o ao barro original, disforme, comezinho, massa pronta para ser moldada à imagem e semelhança de alguém, um alguém qualquer.

 




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