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26 de dezembro de 2017

Impostura

Parecer ausente, desanimado, distante, dissimulado, com a cabeça na lua em algumas ocasiões, quase displicente em outras, um pouco negligente, algo desapegado. Procurar se lembrar de coisas, sem muito sucesso, o dedo indicador paralisado numa das têmporas. Nos momentos certos, apático, indolente, mostrar o quanto está sendo duro suportar tudo isso, cansado, exausto, até o limite da insensibilidade.

Nunca mostrar-se surpreendido, afirmar que não lhe contam tudo, dizer-se ignorante de grande parte dos fatos, jurar que não dá importância aos detalhes, agir como se nada lhe dissesse respeito.

Ter certeza crescente de que se acumulam as evidências e as provas contra si, que de maneira inexorável vão destruindo seus argumentos, que o cerco vai se fechando e não há saída à vista — até sentir que um frio glacial lhe atravessa as costas e um torniquete vai lentamente pressionando-o contra a parede, esmagando sua espinha como se ele estivesse sentado diante da morte, e a morte estivesse cada vez mais próxima.

Seu maior medo, e não há outro, é o de tirarem o véu que lhe cobre a face.

(foto de Rodney Smith)

 




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26 de dezembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos face, impostura, medo, morte, véu

               
              
            
                

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