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25 de setembro de 2015

Indigente oficial

mendiga-2_tratada1Chama-se Angelina e é imprevisível. Invade qualquer espaço sem precisar de convite. Frequentadora assídua dos parques públicos, tem predileção pelas crianças e contempla os meninos e meninas com ternura e um sorriso sem dentes, para aflição das mães. Estas, como medida de precaução, sempre pedem aos pequenos que não se afastem demais, não falem com estranhos – não falem com ela -, e gritem ao menor sinal de perigo. Desconhecem se ela está vacinada, se tem alguma doença contagiosa ou qualquer outro mal. Sabem que se aproxima sempre pedindo comida e, verdade seja dita, não têm notícia de que algum dia tenha prejudicado alguém. É inofensiva, vá lá, mas nunca é demais ter cuidado com gente assim. Angelina sempre revira os cestos de lixo orgânico, quem duvida de que faça suas refeições com o que encontra lá? E isso não é perigoso?

Esta é Angelina. Ela é um ser humano.

As mães que frequentemente levam suas crianças ao parque não deixarão de fazê-lo, em que pese a presença incômoda de Angelina. E, já que ela parece decidida a permanecer nos arredores, elas passarão a considerá-la indigente oficial e integrante da paisagem, como o balanço, a gangorra e o pega-pega, e ela poderá ter direito a uma esmola ou a um resto de sanduíche, desde que se mantenha a uma certa distância das crianças e dos cidadãos de bem.

 




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