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3 de janeiro de 2016

Informe da situação

informe da situaçãoLicença. Permitam-me que lhes diga algo. Mas antes deixem pra lá o que estão fazendo neste exato momento.

Nenhuma tragada mais nesse cigarrinho, nem um só gole mais de cerveja. Também não cantarolem a canção que lhes grudou feito chiclete na memória. Não mandem mensagens pelo celular para os amigos dizendo que sim, ou que não, ou que talvez. Não se cocem, não tussam, não cuspam. Não tremam. Não olhem pela janela para terem certeza se continua chovendo, se o sol apareceu ou se o mundo segue girando apesar de vocês. Creiam-me: ele segue girando como sempre fez. Não procurem com os olhos o seu bichinho de estimação nem, com a língua, um resto de frango que permaneceu entre os dentes de trás.

Não pensem nos agradecimentos cheios de falsidade que me farão depois. Tampouco sorriam. Não joguem no chão os farelos de pão que restaram na roupa, tampouco os levem à boca como se isso fosse o ato de comunhão mais íntimo de sua vida. Não pensem no quanto odeiam seu trabalho nem no tempo que gastaram tentando entender um quadro de Kandinsky.

Não almaldiçoem o big bang se a conexão da internet está trinta e oito segundos mais lenta do que a promessa da operadora que, de forma enganosa, lhes vendeu o serviço, dizendo que vocês não poderiam viver sem ele.

Deixem de olhar, com ou sem o microscópio do rancor, as fotos das exuberantes férias que seus afetos ou desafetos postaram nas redes sociais.

Por um momento não joguem em Deus a culpa por tudo. Nem a culpa por nada. E parem, por um só instante, de entregar pra Ele tudo o que vocês não sabem ou não conseguem resolver. Ele não tem nada a ver com isso.

Parem de beber a chuva, de bocejar, de umedecer os lábios, de roer as unhas, de olhar o teclado e a tela do computador… Deixem de me ler também. Agora.

E deixem também de pensar que, se pararem de me ler, não saberão nunca o que quero lhes dizer.

Por isso mesmo repito: permitam-me que lhes diga algo.

 




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