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31 de março de 2017

Inseparáveis

O fato é que aquele gato, com muita paciência, dedicação e horas de estudo, aprendeu a latir. Latia com força e vigor, como se já fosse um cão adulto. Tanto latiu, que se esqueceu de seus miados originais. As opiniões se dividiram: enquanto uns achavam que se tratava de um falso gato, outros sustentavam que aquele quadrúpede não passava de um cachorro disfarçado, seguramente para enganar e tirar alguma vantagem para si.

Ninguém levava em consideração o virtuosismo do gato em sua performance como cachorro, nem seu empenho para conquistar o posto de melhor gato-cão do mundo. A cada vez que emitia seus elaborados latidos, todos em bemol sustenido (com algumas variações), a comunidade felina o escorraçava e o expulsava do entorno. Era chamado de traidor, apátrida, estrangeiro, vendido, indigente. O mesmo rechaço ele recebia dos cães, para quem ele era apenas um imitador vulgar, medíocre, cujos latidos não eram sequer afinados. Um dissonante estridente, sem fôlego e com voz de pouco alcance, diziam os cachorros. Está fadado ao ostracismo, decretavam.

Renegado por cães e gatos, condenado a vagar sem rumo pelo mundo, o híbrido animal um dia chegou até mim. Bastou pouco tempo para que nos compreendêssemos e nos tornássemos amigos. Decidimos compartilhar teto, ração e respeito. Contei-lhe meus dramas pessoais. Era a primeira vez que alguém me ouvia com alguma atenção — eu, um cachorro abandonado por todos, eu, um cão fino, gentil e educado que só sabia emitir miados de gato. Hoje somos inseparáveis.

 




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