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22 de fevereiro de 2017

Insônia

Uma garotinha ligou para um programa noturno de rádio. Respondendo às perguntas do locutor, disse que tinha oito anos, chamava-se Verinha, estava passando as férias na praia com seus pais e que falava do telefone que havia no corredor da casa. O papai e a mamãe estavam dormindo. Contou que se levantou para beber água e viu o canário no chão da gaiola com as patinhas para cima. Disse também que pegou o passarinho para ver se ele se movimentava, mas percebeu que estava morto.

Os ouvintes, por certo, formaram imagens na mente: uma criança com um pássaro morto numa mão e o telefone na outra, falando para um programa de rádio no meio da madrugada. Por um momento o locutor não soube o que dizer e, depois de alguns segundos de silêncio, sugeriu que Verinha acordasse seus pais e lhes contasse o que tinha acontecido. A menina disse que estava com medo porque eles poderiam pensar que ela tinha matado o passarinho, já que sempre a acusam de tudo. Foi assim quando queimou a televisão ou quando a banheira transbordou e inundou a casa. Ela era sempre a culpada de tudo.

Verinha se expressava de tal maneira articulada, e com tantos detalhes, que toda a audiência, acredito, inclusive eu, teve certeza de que a menina tinha acabado de matar o canário. O locutor pronunciou duas ou três frases aleatórias e chamou apressadamente o comercial. Eu desliguei o rádio, disposto a não saber o final dessa história. Fui para a rua caminhar e atrair o sono.

O mal da insônia, ao contrário do que muita gente pensa, não é não conseguir dormir, mas sim inteirar-se do que acontece na calada da noite, quando o resto do mundo dorme.

 




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