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22 de outubro de 2018

Intolerância

Tudo começou — a sanha discriminatória, que fique claro — com aquele anjo expulso do Paraíso e condenado a vagar pelo mundo como indigente por ter nascido com três asas, deformação que a todos horrorizava, tanto pelo ruído que produzia ao voar quanto pela aparência grotesca, desgostosa. Era insuportável vê-lo planando.

A cruzada intolerante seguiu com a expulsão de outro anjo, portador de desfiguração física não menos detestável que a primeira: tinha uma só asa e, quando alçava voo, provocava vertigem e feria o equilíbrio de quem o olhasse, posto que voava de lado e dava a impressão de que a qualquer momento iria se chocar contra uma montanha mais alta. Vê-lo em atividade era igualmente insuportável.

O trunfo da intolerância mostrou, finalmente, a sua verdadeira e horrenda face. A partir de então teve início uma larga e escandalosa sucessão de perseguições e achaques, culminando com a extinção da espécie. Disse-se à época que todos eles, desde a origem, estavam condenados a desaparecer da superfície da Terra: uns, por serem simplesmente feios e disformes e causarem repugnância a todos quantos os olhavam, outros, por se mostrarem perfeitamente imbecis e faltos de discernimento sobre os assuntos que importavam à maioria, outros ainda, por se meterem nas conversas acerca do mundo antes que o mundo fosse mundo, e os demais, por serem monstruosamente humanos.

 




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22 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos anjo, asa, intolerância, intolerante

               
              
            
                

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