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27 de junho de 2019

Intuir a árvore na semente

Houve uma vez uma cidade, já esquecida, onde todas as tristezas acabavam em suicídio, e isso não comovia mais. Não era raro ouvir um tiro na hora do jantar. Não causava estranheza uma banheira cheia d’água e dois pulsos abertos e exangues. Não espantava um último grito antes que a corda apertasse um pescoço. Triste.

Os relógios seguiram seu curso. Naquela cidade todas as lágrimas formaram um rio. Foram elas que a batizaram com um nome que ninguém ousa repetir — eu tampouco. Triste.

Houve quem risse em público, só um pouco, e logo recolhesse os lábios. Os bares estavam sempre cheios, mas só os temporariamente felizes bebiam. Os tristes se sentavam no canto, olhavam o chão com as mãos escondidas nos braços cruzados; pensavam, pensavam, e no fim de cada pensamento uma só alternativa se impunha. Triste.

Na cidade já esquecida só tinha duas pedras, um rio e um cheiro de alívio em cada uma das sombras que por ali perambulavam. Sombras, não entes vivos. E porque havia centenas de milhares delas, não fazia falta que o sol se pusesse para deixar entrar a noite e escurecer as ruas e avenidas. Era escuro mesmo durante o dia. Triste.

Houvesse a possibilidade de se intuir a árvore na semente, a cidade teria salvação. Não teve. E aconteceu de ela crescer e virar um país. E, como ela, um país já esquecido. Triste.

 




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