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8 de outubro de 2018

Inventar um conto novo

Assim que os maus tempos e o pouco dinheiro chegaram e se instalaram em nossa casa, papai não pôde mais comprar livros. As bruxas e as fadas se viram obrigadas a emigrar para a Alemanha, em busca de trabalho. Os lobos, espertos como são, se disfarçaram de cordeiros e fugiram para Wall Street, lugar onde a realidade não existe e a magia, quando há magia, só serve para multiplicar por dois o valor das ações. Lá todo mundo grita muito e quase não se ouve nada.

Os gnomos não tiveram forças para enfrentar a hipoteca, assim dizia papai. Mesmo que se acorrentassem sob os cogumelos, e esperneassem muito, gritassem muito, a ordem de despejo caiu como uma bomba em cima deles. Coitados! A casinha de chocolate foi comida pelas formigas famintas e o que sobrou dela só deu para pagar dois boletos. E, ainda assim, é certo que esse pouco que restou vai derreter sob o aquecimento global.

O lago onde antes eu brincava com meus amigos está quase vazio. O monstro que vivia lá bebeu a maior parte da água, mesmo correndo o risco de não ter mais onde morar. Os sapos agora agonizam debaixo do sol quente, esperando que apareça alguém e lhes dê um beijo e a chance de voltarem a ter aparência humana. Os patinhos feios, ao contrário, já perderam a esperança de um dia virarem cisnes.

Como não tinham escritura própria, os duendes e os elfos foram expulsos da gruta onde moravam e viviam fumando cachimbo e cantando canções de sacanagem. Os ogros perderam o apetite e o humor; agora dormem o dia inteiro e nem resmungam mais.

É por tudo isso que papai, todas as noites, antes que eu pegue no sono, entra no meu quarto e inventa um conto novo. E assim vamos passando de mês em mês.

 




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8 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos conto novo, duendes, fadas, gnomos, papai

               
              
            
                

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