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7 de fevereiro de 2017

Inventário de revivências

Fincado como um poste na calçada, Luís olha a casa e um calafrio sobe e desce por sua coluna. Suor, ele pensa, o mesmo suor que inunda sua testa. Tanto tempo depois, tanta vida depois, e agora ele está novamente ali, para contabilizar. O inventário precisa mostrar, linha após linha, as perdas e os ganhos dos anos recentes, tão recentes que a ele parece incrível que possam ser chamados de passado. A boca seca, a saliva acre desce por sua garganta e ele tem vontade de chorar. Vender a casa seria uma tarefa dolorosa, ele sabia disso. Também sabia que seria igualmente doloroso recordar a vida que havia ali. O que Luís não sabia é que seria tão doloroso. Tentou dar um passo, mas suas pernas não se entenderam. Com muito esforço chegou à porta. Abriu, entrou e reviveu.

As coisas que ela me dizia quando calava; o buraco do corpo dela no lençol ainda quente; o tempo que perdemos nos insultando; o medo de envelhecer, o medo da solidão, o medo de quase tudo; as luas que beijei nos olhos dela; o violinista bêbado, tocando em volta de nós quando voltamos do cinema, naquela noite de verão; o cheiro bom e ao mesmo tempo ruim do esperma pingando de meu pau; as calcinhas que ela esqueceu na gaveta; o ursinho de estimação salvo do fogo; o pranto em todos os cantos da casa; o filho que nunca tivemos; o gato que miava no telhado e ela insistindo em abrir a janela pra que ele entrasse; o exílio dentro da nossa casa; as pequenas alegrias cotidianas; a pipoca na frente da televisão; as fotografias.

O passado ganindo como um cão machucado; a chuva vista da vidraça; o desamparo; os discursos intermináveis, intermináveis, as palavras tortas cortando como faca (como isso dói!); os papéis que nunca nos uniram de verdade; o alívio que busquei entre as coxas dela; nosso barco à deriva; o bramido do vento nas árvores; o nome na capa do meu caderno de notas; o jeito dela de passar os dedos em meus cabelos; minha canção favorita; a canção predileta dela; o silêncio, aquele muro entre nós dois.

A perda da inocência e da sinceridade; tantas coisas bonitas que morreram; o desejo sombrio e envergonhado das noites quentes; a morte do pai quando ela era só uma menina; o beijo que apodreceu em nossos lábios; a preguiça; as paredes caiadas do apartamento; o naufrágio de tantas certezas; a decadência de tantos deuses e mitos; a decepção ante a fraqueza dos ídolos; nossa cama navegando no vazio; o sexo entediado; as madrugadas insones; as bitucas de cigarro; o árduo aprendizado do respeito; as feridas que nem Deus curou; tudo o que nos foi dado; tudo o que nos foi tirado; o peso que levamos nas costas.

Feito o percurso, Luís deu por encerrado o inventário e caminhou para a porta. Olhou ainda uma vez ao redor, as paredes da sala sempre foram verdes?, e saiu. Olhou a placa com a palavra Vende-se aposta no lado de fora e conferiu o telefone para contato. Resta agora esperar a ligação de alguém interessado em se apoderar da história de sua vida.

 




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