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30 de janeiro de 2015

Iracema voou

super-homem

Se ela soubesse o que aconteceria, teria ido ao salão de beleza para arrumar os cabelos e as unhas. Também teria comprado um vestido novo e um pouco mais decotado que esse que estava usando no momento em que caiu acidentalmente do trigésimo quinto andar, tentando alcançar a folha de papel que o vento levantou de sua mesa de trabalho e empurrou para muito além da sacada de seu apartamento.

Já no ar e em plena queda livre, Iracema mal teve tempo de gritar ou pensar no que acabara de lhe acontecer quando, na altura do décimo segundo andar, seu corpo caiu nos braços musculosos e providenciais de um jovem, surgido sabe Deus de onde, que vestia um uniforme muito justo de lycra azul e vermelha e uma capa esvoaçante que lhe dava, além de leveza e elegância a seu corpo esbelto, um ar de príncipe das Arábias. Não bastasse tudo isso, ainda havia aqueles cabelos: negros como as noites sem lua, todos os fios estavam no lugar, nem o vento tinha forças para desmanchar aquela escultura de gel, musse, laquê e cremes variados. O que será que ele usa para ficar com esse aspecto assim, tão natural?

A descida até o chão foi um verdadeiro passeio de carrossel, suave e delicado. Assim que a pousou na calçada, o herói se despediu com um beijo nas mãos de Iracema e voltou a ganhar as alturas, não sem antes dizer que sim, amanhã podemos nos ver neste mesmo lugar e a esta mesma hora.

Iracema não perdeu tempo: no dia seguinte, logo cedo, foi ao cabeleireiro, à manicure e à pedicure, fez limpeza de pele e depilação e comprou um vestido novo, escolhido a dedo para as extravagâncias de um voo livre. Na hora combinada, ela se aproximou da sacada do apartamento e se atirou no ar, sem medo de ser feliz. Durante a queda, aproveitou para dar os últimos retoques na maquiagem. Entrou em pânico quando passou pelo décimo segundo andar e não sentiu os braços fortes do homem de capa sustentando seu corpo. Quando passou pelo sexto andar, já conformada com sua sorte, foi obrigada a admitir que, se já era difícil descer de uma nuvem e cair em pé no chão, muito mais duro seria fazer isso de cabeça.

 

 




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30 de janeiro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Iracema, queda livre

               
              
            
                

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