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10 de outubro de 2014

Isso também é amor

Acordar num domingo, abrir a janela e olhar o sol como se olha para um adversário. Lembrar-se de que não há pó de café e contentar-se com uma caneca de chá. Sair à rua e caminhar à toa, sem rumo, olhando para o chão. Não perceber as árvores ao redor, nem ouvir o canto dos pássaros. Comprar comida congelada e esquecer-se de comer. Encontrar, depois de muitos anos, um velho amigo de infância e não fazer festa. Não dar atenção ao mendigo que estende a mão e pede umas moedas. Atravessar o parque lotado de gente e não reparar como o sol ilumina o rosto das pessoas. Voltar para casa e acariciar sem vontade a cabeça do cachorro que ficou à espera. Perceber que os vasos estão secos e não ter vontade de regar as plantas. Não ter mais medo do chefe. Dormir no sofá com a televisão ligada. Acordar na segunda-feira, abrir a janela e olhar o sol como se olha para um adversário. Isso também é amor. Implacável, dolorido amor.




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