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18 de março de 2019

Jacarandá-mimoso

Janete cruzou cedo a linha da infância. Tinha doze anos quando pôs aquele vestido e foi, sobre os próprios pés, caminhar na calçada, a noite nem estava feita ainda. Ofereceu o que tinha, e o que tinha tinha frescor. Ganhou uns trocados, sua mãe nem desconfiou. Tremeu muito na primeira vez, menos na segunda, nada na terceira.

Tinha ossos salientes acima dos peitos pequenos, ainda em formação. Chorava de leve quando os sujeitos acariciavam os bicos, ouvia e não entendia quando eles diziam que ficavam loucos com tanta beleza, que tipinho mais gostoso de garota, você me deixa louco.

Ainda se lembrava do príncipe que iria encontrar quando ficasse maior, já sabia de cor como era a cara dele, o cabelo, a roupa, a voz. Essa era a conversa com a Cilene, a amiga que mudou de cidade no ano passado. Vou morrer de amor por ele, Janete segredava aos risinhos. As duas tapavam a boca para gargalhar, apesar dos dentes ainda bons.

Aos quatorze, Janete aprendeu a gostar de vinho, só do branco, gelado, e ficou amiga dos soldados que faziam ronda por lá. Célio era seu preferido, sempre dava carona até a esquina de casa, e conversava. Falava que ela devia estudar. Janete respondia que sim, um dia desses ia começar.

À noite, em casa, ninguém perguntava aonde tinha andado. Deixava duas notas de cinquenta em cima da mesa e ia dormir. O pai já roncava na cama, a mãe fazia crochê para vender e a olhava por cima dos óculos, o irmão Jadson, três anos mais velho, já se sentia homem e não dava notícia fazia dois dias.

Quando não aparecia freguês, Janete namorava a lua sentada no banco da praça da igreja, porque toda cidade do interior tem igreja com praça e banco para sentar. Célio sempre passava por lá. Hoje não passou, vai ver foi rondar o outro lado da cidade. Janete olhou a lua e pensou no seu príncipe, mas não conseguiu se lembrar de como era a cara dele, nem o cabelo, a roupa ou a voz.

Mais um copo de vinho branco no bar da esquina e hoje já deu, sono e cansada. Não chegou a meter a chave na fechadura da porta, uma mão fedorenta cobriu sua boca e ela só foi abrir de leve os olhos quando estava nua em cima de uma mesa, num lugar desconhecido. Viu sete meninos olhando para ela. Três deles estavam armados, isso é melhor que video game, mano, um deles falou. Quem começou foi o de cabelo cortado reco. Doeu, o pivete não sabia fazer. Depois o mais baixo deles, em seguida veio o loiro que ela até conhecia de vista. Na vez do quarto, Janete sentiu fraqueza e desmaiou. Não viu o que o quinto, o sexto e o sétimo fizeram.

Foi encontrada no dia seguinte na beira da rodovia, embaixo do jacarandá-mimoso que dava nome à cidade. Janete tinha nascido num lugar chamado Jacarandá-Mimoso, no interior de Goiás. Morreu lá também. O soldado Célio foi quem encontrou o corpo. E chorou quando viu de quem era.

 




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