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18 de janeiro de 2017

Janete no metrô

São 7h39 da manhã, o metrô entra no túnel e Janete respira aliviada. Ela tem seis minutos — exatamente seis minutos — até a próxima parada e muito por fazer. Assim que se acomodou, abriu a bolsa e tirou de lá tudo o que precisava para arrumar o rosto: o pente minúsculo para as sobrancelhas, o lápis para o contorno dos olhos, caprichou no rímel, espalhou um pouco de blush nas bochechas e desenhou os lábios com batom vermelho. Colocou rapidamente os brincos e escovou os cabelos. Deu uma última olhada na blusa e nos sapatos e sentiu o coração disparar quando o trem diminuiu a velocidade para estacionar na estação seguinte.

Ela olha apreensiva pela janela, procurando enxergar além do vaivém de pessoas na plataforma. Prende a respiração e espera. As portas se abrem e Janete espera. Janete espera.

— Mas onde demônios ele está?, ela quase sufoca um grito, o coração em trote acelerado no peito.

Ela então o vê descer as escadas aos pulos. Corre, moço, por Deus, por favor, pela paz universal, pelas crianças da África, pelos refugiados sírios, pelo que há de mais sagrado, pela alma de sua mãezinha, CORRE! Você não pode perder o trem, não posso esperar nem um dia mais para lhe dizer que às 7h45 é o momento mais importante do meu dia, que me acostumei a ficar do seu lado no metrô, a me encostar em você nas sacudidas do vagão lotado, e isso é a coisa mais erótica e excitante que consigo imaginar, eu me apaixonei por um desconhecido como uma louca, como uma menina, como uma idiota! CORRE, moço!

A voz de Janete queria pular da garganta e ganhar o espaço para fora de sua boca, mas só conseguia reverberar dentro da própria cabeça. Como será o seu nome, pelo amor de Deus? Eu te amo, moço, você é a minha vida!

E porque o trem sabe coisa alguma de amor, e porque ninguém naquela multidão de pernas apressadas e bolsas e maletas e sacolas sabe coisa nenhuma de amor, e porque o serviço de som do metrô não percebe que ela… e porque as portas do vagão não têm olhos nem ouvidos nem coração para quem está apaixonado, e ela está apaixonada, Janete ouve o apito e vê com desespero quando as duas metades da porta se movimentam uma em direção da outra e já não havia mais nada a fazer. Encolhida no banco, o nariz grudado no vidro da janela, Janete o vê correndo na plataforma com os braços abertos como que clamando aos céus, ao mesmo tempo em que o vagão começa a se mover. O que sabe o metrô sobre o amor? Nada.

O trem acelera rumo à próxima estação e Janete tenta conter as lágrimas para não borrar a maquiagem recém-feita. Chora, órfã de sua pequena alegria diária, miserável sem a migalha de seu prazer cotidiano.

 




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18 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos amor, metrô, moço, trem

              
            
  1. Amei ! Gostei da expressão “…pelos refugiados sírios…”, isto mostra que é engajado e atual !
    Parabéns!!!
    Quantas paixões secretas, (cada um de nós), já sentimos, sofremos e quantas lágrimas derramadas…Algumas deixam marcas profundas, ainda bem que a maioria passa…..

    • Obrigado, Liman! Gostei muito de seu comentário. Sobre os “refugiados sírios”, é obrigação do escritor estar conectado com seu tempo, eu acho. Grande abraço e apareça sempre por aqui.

  2.     
                        
              
            
                

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