Close

1 de junho de 2015

Largada

largada

Estava nua sob os lençóis revirados quando despertou, às onze e meia da manhã. O rímel escorrido, lágrimas negras perfeitamente tatuadas sob os olhos, dava a seu rosto uma aparência de fantasma. Cortinas ainda fechadas, apenas a luz débil de um abajur deixava entrever – ou adivinhar – o contorno das coisas ao redor: a cômoda, o armário, as roupas jogadas sobre uma cadeira, os sapatos no chão. E o corpo a seu lado.

Apoiou-se nos braços e sentou-se na cama. Segurou a cabeça com as mãos, temendo que ela, rodando como as roupas numa lavadora, em algum momento se soltasse do pescoço e saísse voando pelo quarto. Doía. Pisou uma guimba com a planta do pé esquerdo. Xingou e a levou aos lábios. Procurou o isqueiro e caminhou até a janela. Acendeu o cigarro. Olhou para fora. O sol estalava, derretia o asfalto. Abriu a janela e deixou o ar invadir o quarto. Cheiro de álcool e sexo. E também o cheiro de vergonha, desilusão, vingança, fúria, insatisfação e todo o abandono do mundo. Cheiros grudados nas paredes.

Lembrou-se de repente e olhou a porta entreaberta do armário. Lá ainda estavam o paletó e uma ou outra camisa, lembranças amargas de uma história igualmente amarga. Vou embora, pode ficar com tudo, saco cheio, tenho outra. Deu uma longa tragada no cigarro. Tenho outra, atirou a guimba pela janela com raiva. Voltou os olhos para o interior do quarto. Caminhou de volta até a cama para averiguar quem era o dono daquelas costas arranhadas que dormia em seu colchão.

Olhou aquele rosto barbado e não se lembrava de onde o tinha conhecido. Pensou que sua vida tem sido assim desde que fora largada: uma sucessão de rostos barbados, desconhecidos, que pousavam ao acaso em sua cama e dos quais pouco se lembrava assim que iam embora. Resignou-se: largada.

Pensou, com aflição, que já era passada a hora de juntar os restos, as sobras, os cacos de sua vida, que há muito carecia de sentido. Um choro de criança quebrou o silêncio do quarto. Ela vestiu uma roupa qualquer e foi até a cozinha esquentar o leite.

 




Tags:

1 de junho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos largada

               
              
            
                

Deixe um comentário