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23 de agosto de 2016

O limite da solidão das tardes de domingo

abstinênciaTodos os domingos, depois da missa das onze, as senhoritas Figueiredo Abrantes passeiam sua elegância recatada pela praça da matriz — sapatos de salto médio, saia abaixo do joelho, discreto decote, uma ou outra joia de família. Pode-se dizer que não só se preocupam em combinar cada peça dentro de uma mesma paleta de cores, como procuram estabelecer um contraste harmonioso entre ambas: se uma opta por tons de vermelho, a outra escolhe variações de azul; laranja uma, roxo a outra; verde e marrom, vinho e bege. Andam devagar, de braços dados e nunca olham para trás. Cumprimentam conhecidos com sorriso enigmático e um leve aceno de cabeça. Passam no supermercado e ao meio-dia voltam para casa carregando sacolas com pequenas compras: biscoitos para o chá, esmalte para as unhas, um partida de pão integral, linhas e lãs para o crochê e o tricô, algumas frutas.

No final da tarde é comum vê-las de novo na rua, desarrumadas, sem preocupação com o traje ou o cabelo e com o ar apressado de quem ficou sem sal para cozinhar ou está em busca de uma farmácia de plantão. Caminham com determinação para um local que conhecem bem. Levam no bolso o dinheiro trocado para as duas garrafas habituais: Giselda pede uma de rum, Agostina prefere vodca. Voltam para casa da mesma maneira: apressadas, sem olhar para os lados, arrastando os chinelos e apertando a garrafa contra o peito. Mostram aflição e angústia no rosto. Por mais que tentassem e fizessem grande esforço, nunca conseguiram que a abstinência ultrapassasse o limite da solidão das tardes de domingo.

 




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  1. Maravilha, retrato o sentimento da maioria das pessoas em relacao ao domingo com seu maldito Fantastico que a uncia o fim do fim de semana….rs

  2.     
                        
              
            
                

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