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26 de julho de 2016

O limite do insuportável

tormentaEsta noite uma tormenta se avizinha. Há meses chove sem parar no vilarejo, como numa Macondo da vida real, deslocada no tempo e no espaço. Só se vê escuridão e água, nunca mais um amanhecer separando o dia da noite. Ninguém sai à rua, só para o imprescindível, como comprar comida. Na volta, até os ossos precisam ser aquecidos, pra que não esfarelem com a umidade. Na casa de Aparício e Luzinete, ele é quem cuida de trazer os mantimentos. Pelo menos isso ele faz, o muito troncho!, resmunga ela, exasperada, não se sabe se pelo temporal que não termina, se pelo marido encardido e bêbado.

Sobre a mesa da cozinha, algo pra comer: uma partida de pão, batatas, chouriço, carne seca, milho, sardinha e uma lata de azeite. Também umas tantas garrafas de vinho, cigarros, um baralho e o jornal. Não é tempo de guerra, mas parece. Até quando vai essa merda de chuva, pelo amor do meu caralho?, Aparício não esconde a irritação.

Sentado perto da janela, ele bebe e fuma olhando a descida da água no lado de fora dos vidros. Acende cada cigarro com a bituca do anterior. Não há o que fazer além de ruminar o aguaceiro infindável. Luzinete joga paciência sem muita vontade e bebe vinho diretamente no gargalo. Volta a cabeça para a janela, suspira e retorna ao baralho.

— Você podia fazer uma torta de batata — Aparício solta a voz de tabaco sem tirar os olhos da chuva. A gente tem que comer alguma coisa, não tem?

Luzinete recolhe as cartas com má vontade, faz um monte. Estica o braço e pega quatro batatas. Começa a descascar, praguejando baixinho contra a faca que não corta. Amontoa as cascas sobre a mesa. Que nojo!, resmunga. Bebe mais, do gargalo. Mete as cascas num saco plástico e vai até a lata de lixo, no lado de fora da casa. Lá, olha para o céu e para a água que não cessa de cair. Grita para o alto Chega, porra, já não basta?, no mesmo instante em que um relâmpago rasga o céu negro.

Volta para dentro e bate a porta. Olha para o marido, para as garrafas vazias sobre a mesa e vai cambaleando até o fogão. Tu vai comer a melhor torta de batata da tua vida, decreta, destilando veneno em cada sílaba. Boa sorte. Na tua idade, já é tempo de fazer algo que preste, o marido retruca, a voz amolecida pelo vinho. Lá fora, a chuva segue caindo; lá dentro, os nervos estiram-se até o limite do insuportável. Esta noite uma tormenta se avizinha.

 




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