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22 de fevereiro de 2019

Lista

Todos os meus amigos de infância morreram.

A menina mais famosa da cidade, a quem chamavam Dadeira, não era minha amiga e não morreu.

O vizinho da rua de cima, de média idade, em cuja cabeça desabou um caramanchão, esse sim, morreu.

Laércio, o que trabalhava mais de quinze horas por dia numa mineradora, de quem há tempos não vejo o rosto, hoje me contaram: morreu com lama acima do pescoço.

Celeste, que não morreu, mas teve um filho que só viveu três meses, e isso de alguma maneira a matou.

A única namorada que tive no ginásio, que não está morta ainda, mas lembro-me de ter lido no Facebook que entrou em coma irreversível e que todos deveriam rezar por ela.

A praça da cidade, que ocupava um quarteirão e tinha árvores perfumosas, desapareceu: deu lugar a um prédio de apartamentos, com duas vagas de garagem para cada um.

Antes, viver não era o mesmo que ter medo.

Benjamin Button viveu a vida ao contrário.

Nós não: somos o contrário de Benjamin Button.

Envelhecemos.

E fazemos listas.

 




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