Close

30 de abril de 2020

Listas

Quase todos os meus amigos de infância morreram.

 

Celeste não morreu,

mas teve um filho que só viveu três meses,

e isso de alguma maneira a matou.

 

O vizinho da rua de cima, Tião, de média idade,

em cuja cabeça desabou um caramanchão florido,

esse sim, morreu.

 

A menina mais famosa da cidade,

a quem chamavam Dadeira,

não era minha amiga e não morreu por um triz:

o último rapaz, dos quinze que a estupraram, teve dó e interrompeu a farra.

 

Laércio, o que trabalhava mais de quinze horas por dia numa mineradora,

de quem há tempos não via o rosto,

hoje me contaram: morreu no estouro da barragem,

com lama acima do pescoço.

 

A única namorada que tive no ginásio não está morta ainda,

mas me lembro de ter lido no Facebook que ela entrou em coma irreversível

e que todos deveriam rezar por ela.

 

A praça da cidade, que ocupava um quarteirão e tinha árvores perfumosas,

desapareceu: deu lugar a um prédio de apartamentos,

com duas vagas de garagem para cada um.

 

Antes, viver não era o mesmo que ter medo.

Benjamin Button viveu a vida ao contrário.

Nós não: somos o contrário de Benjamin Button.

Envelhecemos.

Temos medo.

E fazemos listas.

 




Tags:, , , , , , , , , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário