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23 de novembro de 2015

Liturgia

liturgiaPrimeiro a mão vai até o cálice grande e dourado, cheio de hóstias, recolhe uma delas e segue em linha reta até a língua estirada à sua frente. A mão deixa cair a hóstia, corpo de Cristo, a língua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da língua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os lábios e os olhos e assume sua culpa católica e sua condição de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns mínimos instantes, o suficiente para que transpareça verdade em sua intenção. Depois, sem nada dizer, com a hóstia derretendo no céu da boca, ele se levanta e volta, de cabeça baixa, para o lugar de onde tinha saído. Agora a mão está imóvel, esperando o próximo pecador. É uma pecadora.

Ela vem, não tão devagar, para não atrasar o andamento do ritual, nem tão apressada, para não perturbar a devoção do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cadência exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balançar de seus quadris, a pulsação de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustentação de toda aquela estrutura óssea que se move. A mão está parada, à espera, já com a hóstia entre os dedos. O dono da mão pigarreia e deixa escapar certo incômodo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase roça os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando Que descuidada que sou! uma nesga de coxa. A mão treme, corpo de Cristo, ao movimentar-se em linha reta conduzindo a hóstia na direção daquela língua esticada na medida certa – não tão fora da boca para não indicar lubricidade, nem tão dentro que o dono da mão precise roçar os dedos em seus lábios e dentes. Ela não fecha os olhos para o dono da mão, antes olha para ele no momento de receber sua porção de farinha e água. Ela recolhe a língua, abaixa a cabeça – culpada, católica culpada assumida! – e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cadência, sem olhar para trás.

Agora a mão já não consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se vê é uma mão insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Após a mão vêm o cotovelo, o ombro, o pescoço e o rosto, todos partes de um único ser que nesse exato momento chora. O coroinha não entende o que se passa, e o sacristão levanta as mãos para o alto, Mas o que é que está acontecendo com o padre Fernando?

 




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