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27 de julho de 2020

Lurdinha

No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada!

Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de seis anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário.

Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemplo, onde ficava a casa de chocolate em que morava sua amiga Filó — Lurdinha, coitada!, não conseguia prestar atenção ao que lhe diziam. Fixava os olhos nos gestos do interlocutor, escutava sua voz e divagava. As palavras que ouvia passavam como brisa fresca por seu cérebro e iam embora. Filó certamente se cansará de esperar pela amiguinha.

Lurdinha saboreava com os olhos apertados os gestos, os silêncios, o jeito e o olhar daqueles que falavam com ela. Descobria os segredos, os desejos, as tristezas, as esperanças, as mágoas, as alegrias. Seu corpo às vezes doía com tanta informação. Outras vezes sentia o coração pulsar mais rápido com a poesia que, sem esforço nenhum, conseguia criar na brevidade de uma pergunta.

Em sua meninice, e com a cabeça tão pequenininha, Lurdinha usava a lógica natural: Acho que não vou encontrar a casa da Filó assim, de primeira, mas com poesia o caminho até lá vai ficar bem mais bonito.

E lá ia Lurdinha, coitada!, procurar a casa de chocolate da amiga Filó, lambendo com gosto um picolé Chicabon.

 




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