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20 de maio de 2017

A luz e a treva

Benditos, benditos sejam os ricos sem dinheiro, os vagabundos com preguiça, os que presenteiam com livros, os últimos que chegam em primeiro, os carecas que tiram o chapéu diante da dignidade e da beleza, as putas que, com sua boceta úmida, consolam os tristes mais que Madre Tereza de Calcutá, os simples, os puros de coração, os que gargalham da tristeza, os que ainda não perderam a inocência e a sinceridade.

Que sejam benditas as mulheres que se chamam Maria, e benditos os zeros à esquerda, os que nasceram em nenhum lugar, as raras exceções. E os santos milagrosos, os gordos carinhosos, os artistas que não sujam as paredes das ruas, mas as enfeitam, os loucos que pensam ser Jesus Cristo, as lésbicas barulhentas, as bichas engraçadas, os caolhos que querem ver além, os mortos que morreram em paz.

Abençoados sejam os que puderam ser e não quiseram, os dentistas que sabem tirar as dores de dente, os médicos que nos dão um novo coração, os professores, a carne da sopa de todo dia, o ar puro com que nos brindam as árvores, os tímidos que, ao menos uma vez, levantam a voz, a mancha de esperma na braguilha do beato, a calcinha vermelha das moças evangélicas, os recordes que não aparecem no Guinness, os cínicos que choram escondidos no escuro do cinema, os mistérios gozosos do rosário. Benditos, benditos sejam!

Que sejam malditos os submissos, os que pedem licença para mijar, os súditos do deus da certeza. E os que contam vantagens sobre seus filhos, os que dizem “veja bem”, os que fodem de luz apagada e cobertos pelos lençóis, os canalhas que posam de benfeitores, os “escute, bro, no meu táxi não se fuma”, os que se molham só um pouco quando chove, os que só sorriem para as fotografias, os que progridem mesmo sem nunca saírem do lugar.

Amaldiçoados sejam os os campeões ególatras dos selfies, a voz da experiência, a justiça que olha e não vê, os tontos que estufam o peito e ostentam medalhas, os filhinhos de mamãe, os livros de autoajuda, os políticos de olho no próprio umbigo, as letras pequenininhas dos contratos, o sorvete de chuchu, os que têm adoração cega e incondicional, os sujeitos que só se aproximam por interesse, os histéricos, os “sabe com quem está falando?”, os que espalham boatos, os que detêm as maiores fortunas do mundo, os que riem dizendo “eu não avisei?”.

Malditos, malditos sejam os que exploram e humilham e roubam os menos favorecidos, os oportunistas, os que não dão oportunidades, os fanáticos por limpeza e simetria, os que exibem nas redes as fotos da casa que têm na praia, os que subornam, os que corrompem, os que se deixam corromper, os que já perderam a inocência e a sinceridade. Malditos, malditos sejam!

 




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20 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética benditos, luz, malditos, treva

               
              
            
                

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