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8 de outubro de 2014

A mala que veio do passado

 

 

Ontem à tarde, no meio do trabalho, recebi o telefonema de uma companhia aérea dizendo que haviam encontrado minha mala extraviada. Informaram-me que eu poderia passar no aeroporto a qualquer hora para apanhá-la. Estranhei o aviso e disse que não me lembrava de perder nenhuma mala e que havia muito tempo não viajava de avião. Tinha ido a Berlim há mais de quatro anos, em minha última viagem internacional. A voz do outro lado apenas lamentou o ocorrido, repetiu que a mala fora encontrada e que estava à minha disposição. Agradeceu minha atenção e desligou.

Fui até lá no dia seguinte e a vi. De couro marrom e desgastada pelas tantas viagens que realizei, era mesmo minha aquela mala. Olhei-a como se a visse pela primeira vez, mas não podia negar: meu nome estava na etiqueta. Pertencia a mim e, ao mesmo tempo, como era estranha!

Voltei com ela para casa. Coloquei-a sobre a cama e dei dois passos para trás, para contemplá-la de longe. Havia algo em torno daquele pedaço de couro marrom que eu não conseguia identificar. Não a abri naquele momento. Fui tomar banho e preparar minha comida. Não pensei mais nela.

Quando voltei ao quarto, já na hora de dormir, vi-a novamente. Ela continuava sobre a cama, imóvel e misteriosa. Puxei o zíper devagar e levantei a tampa com reverência, como se fosse um objeto sagrado ao qual não se pudesse tocar com brusquidão. Sentindo-me um intruso, revirei o conteúdo. Reconheci algumas roupas, outros tantos objetos e a minha letra num pequeno caderno de notas. Notas de quem eu era há mais de quatro anos. Notas de um passado que eu supunha esquecido, e que esquecido deveria permanecer. Fechei a mala e a depositei no fundo do armário. Que ficasse lá, junto com aquele tempo que minha memória tinha transformado em fumaça. Apaguei a luz e não pensei mais no caso.

 




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