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2 de julho de 2020

Mantra

Eu não saio de casa —

me acostumei.

Canto mantras,

vejo a paisagem pela janela,

entardeço com cheiro de comida,

anoiteço na frente da TV,

me conformo.

 

Pouco a pouco reviso

todos os cantos da minha vida.

Não me acovardo, não deixo nada intocado,

tiro toda a poeira,

jogo fora o lixo,

mudo as coisas de lugar,

me conformo.

 

A saudade, quando vem,

se esquece de lamber minha ferida:

eu faço isso por ela.

Sinto muita saudade,

me conformo.

 

Há o silêncio,

esse eu corto com faca,

fatias simétricas sem som, sem vibração,

a cada uma dou a atenção devida

e depois me conformo.

 

Os pesadelos estão na almofada do sofá

— onde estão os sonhos?

Tenho ânsia de gritar

aos velhos bruxos das montanhas:

“Não abandonem seus filhos!”

Mas me calo

e me conformo.

 

Eu não saio de casa —

me acostumei.

 




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