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22 de julho de 2017

Manuel Urgente

Contam que todo mundo já sabia quando Manuel Urgente estava se aproximando do boteco do Massa, antes mesmo que ele gritasse Massa, o mesmo de ontem, urgente!: o ringtém das rodas de seu carrinho de feira, cheio até a boca com as latinhas que ele catava nas ruas, rangendo sobre os paralelepípedos, o denunciava. Hoje ao entardecer não foi diferente. Massa, o mesmo de ontem, urgente!, ele gritou, estacionando o carrinho na porta do bar. Entrou, bebeu de um trago só, não falou com ninguém e saiu cambaleando mas sem perder o equilíbrio.

Mais adiante, a noite já descida sobre as calçadas, Manuel sentiu falta de seu carrinho. Lembrou-se de que bebeu o de sempre no Massa, mas não de onde tinha deixado o seu instrumento de trabalho, se foi na porta do boteco ou em algum beco por aí ou mesmo se tinha saído com ele naquela manhã, empurrando e fazendo ringtém pelas ruas. Agora já era noite e onde estava seu carrinho? Não era a primeira vez que isso acontecia. Manuel Urgente sabia que sua memória estava batendo em retirada; o que fazer para evitar um desastre maior, isso ele não sabia.

Contam que, horas depois, desorientado, Manuel Urgente abordou todas as pessoas com quem cruzou pela cidade, perguntando se tinham visto o carrinho que ele deixou largado na porta do bar do Massa. Pediu que não zombassem de sua desgraça, que ele estava cambaleando mas que ainda era muito homem pra se manter em pé. Contam que ele em momento algum se deu por vencido, vagando pelas ruas e rasgando o peito de tanta angústia pela perda de seu carrinho. Viram-no, nessa noite de muito sofrimento, sentado num banco da praça para aliviar a dor das pernas, que mal aguentavam o peso de seu corpo. Ei, Urgente, onde você deixou seu carrinho hoje?, as pessoas passavam por ele às gargalhadas. Manuel respondeu que não tinha certeza, que acreditava que ele estava em algum lugar, mas que não sabia como encontrá-lo.

Contam também que, alta madrugada, quando a cidade inteira dormia e só se ouvia o silêncio, Manuel Urgente levantou os olhos e viu quando Esmeralda, na casa em frente, abriu a janela para respirar um pouco de ar fresco. Contam que entre os dois houve um olhar muito demorado, de gente que se reconhece no mesmo cansaço. Foi quando Manuel tirou a boina e bateu com os dedos na cabeça, balbuciando Ela tá fugindo de mim, Esmeralda, tá indo embora!

Contam — e disso não se duvide — que Esmeralda abriu a porta, foi até ele e disse para não se preocupar. Que entrasse em sua casa e descansasse um pouco. Que quando o dia raiasse tudo seria diferente. Que essas coisas têm um tempo certo pra acabar.

Contam mais: que Manuel Urgente, de tão cansado, não se lembrava mais do carrinho esquecido na porta do boteco do Massa. O que ele queria, e nisso Esmeralda, com seus seios fartos e seu colo generoso, foi de grande ajuda, era estar longe das ruas caso sentisse vontade de chorar.

 




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22 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos carrinho, chorar, Manuel, urgente

               
              
            
                

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