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14 de agosto de 2019

Maria Mercedes se olha no espelho

Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Dizia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas para analfabetos. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas brilhando, o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava. À noite, na escola, escrevia bem devagar, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.

Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Escreveu espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia certamente via? Quando escreveu barriga, viu a dita cuja no filho, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever bem e que, quando soubesse à perfeição, teria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que pena valeria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito ou feito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e de repente se visse.

 




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14 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos escrever, espelho, letra, palavra

               
              
            
                

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