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25 de fevereiro de 2015

Mateus, 26:21

bebados

No fundo daquele boteco de beira de estrada, sob a nuvem de fumaça dos charutos, os sete tipos mal-encarados bebem e gargalham alto. Esperam. Foram convocados pelo chefe para uma reunião cujo motivo desconhecem. Barrigudos e de camisa aberta no peito, o aspecto sujo de todos eles chama a atenção. Riem com estardalhaço e debocham de tudo. Os demais fregueses logo se afastaram, com esse tipo de gente era melhor não se meter.

Enquanto esperam, contam piadas e jogam cartas. Conversam sobre as mulheres e o tamanho de suas tetas. Bebem, arrotam, cospem no chão e dizem palavrões. Comportam-se com arrogância e não se preocupam em esconder a arma presa à cintura.

Interrompem a farra quando olham para a porta que dá acesso ao fundo do salão. Lá estava ele: o chefe. O ar fica parado e um silêncio pesado cai sobre a mesa em que eles estão. Ficam de pé e engolem o riso e a saliva olhando para aquele homem vestido de negro da cabeça aos pés. O chefe não cumprimenta os beberrões, antes dirige a eles um olhar de desprezo que os deixa gelados.

Sem tirar o chapéu, o homem de preto se aproxima da mesa apoiado numa bengala. Faz sinal para que todos se sentem. Tira do bolso do casaco um pequeno exemplar da Bíblia e o abre no Evangelho de São Mateus. Entrega o livro aberto a um dos homens e aponta um trecho com o dedo. O escolhido entende que deve ler. Começa a leitura com tom firme, mas, à medida que avança, sua voz vai se quebrando até se transformar num quase inaudível e trêmulo gemido:

“E enquanto comiam, Jesus disse: Em verdade vos digo que um de vocês me trairá. E, entristecidos em grande maneira, cada um deles começou a perguntar: Serei eu, Senhor? Serei eu, Mestre?”.

 




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25 de fevereiro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos bêbados, mateus 26:21, trair

               
              
            
                

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