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1 de fevereiro de 2017

Memória blue

A culpa foi do taxista: assoviou a canção, reacendeu memórias, ele tinha que assoviar a canção? Perguntei: Sabe se o Bar Vertigem ainda existe? Toca pra lá. Como eu poderia supor que você ainda estaria sentada na cauda do mesmo piano, dez anos depois, cantando pra mim? Quem teve a ideia de ressuscitar aquelas noites de bebedeira, beijos e juventude ao som de Home of the Blues?

Não falei que você está mais bonita, nem você lançou mão do clichê Rapaz, não mudou nada! Só terminanos a garrafa de vinho que tinha ficado pela metade dez anos atrás. Você ainda vai cantar mais? Eu nunca me esqueci da canção de Johnny Cash. Ela sorriu o melhor sorriso e apontou: Aquele bêbado lá pediu You’ve Changed. Pedido de bêbado você já conhece, não? Fique aí e escute.

Eu escutarei. Dizem por aí que o blues é um manual para aprender a chorar; eu digo que é para se lembrar que a solidão existe. Um assovio no táxi me trouxe aqui, neste mesmo bar, e o calor do blues tirou você do baú. A naftalina e o álcool fizeram milagre e você está, sim, mais bonita. Só não me diga que o nosso blues desapareceu no assento de trás de um Fusca azul e velho.

Não pergunte o que aconteceu esses anos todos, eu também não perguntarei. O trem do esquecimento passou rápido como um vendaval e agora estamos aqui nesse encontro de almas a bordo do assovio de um taxista. Não se deve nunca voltar ao lugar onde se foi feliz, gritam os conselheiros, mas eu não dou ouvidos a conselhos.

Vai lá, cante a canção da Billie e eu ficarei aqui. Volte logo, há um táxi azul esperando por nós dois.

 




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