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20 de abril de 2018

Memória para último uso

No dia de seu aniversário de oitenta e cinco anos, ele saiu de casa pela primeira vez depois do longo período em que seus passos só conheceram o caminho entre o quarto, o banheiro e a cozinha. Era outono e fazia frio, e sua garganta rascava. Com esforço chegou até o banco costumeiro, na avenida diante do mar. Por sorte estava vazio e era disso que ele precisava: ninguém por perto, nenhuma presença que o incomodasse, nenhum olhar curioso sobre a sua pessoa. Soltou o corpo sobre o assento e tirou o chapéu. Estava cansado. Tossiu e levou a mão à garganta, identificando o incômodo. Passou os dedos pelas tábuas do banco, acariciou os nós da madeira e depois perdeu o olhar na imensidão que tinha à frente. Este banco é mais confortável que o anterior, de pedra. Mas o mar continua o mesmo de sempre, traiçoeiro. Olhou as ondas e sua mesmice. Fechou os olhos e respirou devagarinho.

Quando levantou as pálpebras, instantes depois, viu-se com dez anos sentado na areia, fazendo castelos com dois amigos. Em seguida tinha vinte anos e sentiu nos lábios sabores novos: a primeira taça de vinho tinto, o beijo de Cecília, o sangue que a bofetada de seu pai produziu.

Continuou olhando o mar e apreciando as imagens que passavam diante de seus olhos: a trincheira durante a guerra, a dor, o companheiro que pisou numa mina, a fome, o rádio, as cartas de Cecília, o frio, o cheiro de pão fresco, as fotografias, o casamento, o sorriso de Cecília, o trigo queimado, os filhos, a cidade, a televisão, o trem, o trabalho, a casa que tinha construído, a ausência de Cecília, a solidão, o abandono, o esquecimento, o banco, o mar, a areia, uma lágrima, um sorriso — tudo o que acreditava perdido, tudo o que estava escondido, até aquele momento, nalgum escaninho da memória. Aprendeu, sentado naquele banco, a abrir os olhos sem medo, a fechá-los sem culpa e a tranquilamente dizer adeus a tudo.

Sabendo que não sabia nadar, caminhou devagarinho na direção da água.

 




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20 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos água, banco, mar, memória

               
              
            
                

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