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19 de janeiro de 2017

Memórias de aquarela

Eu subia na ponta dos pés, esticava o braço e arrancava uma maçã. Depois me sentava no chão e apoiava as costas no tronco da macieira. Enfiava os dentes na fruta enquanto as vacas, mais adiante, olhavam como estátuas o horizonte de montanhas e nuvens baixas. Nada acontecia nesse cenário parado, o ar não se movia e eu estava convicto de que a vida era assim: uma aquarela.

Depois da última mordida, atirava o esqueleto da maçã o mais longe que pudesse, mas ele nunca chegava lá, caía a míseros metros de onde eu estava. E então eu pensava em nadar na grama e fazer carinho nas vacas, ou em adivinhar quando ia chover ou quando iria ouvir minha mãe gritar da varanda, mãos na cintura, que o almoço estava pronto. Mas não: eu permanecia apoiado no tronco da macieira, os olhos fechados, sonhando no meio de tudo com o nada mais absoluto e belo. E o mundo, naquele então, cabia inteiro dentro dos meus olhos e na sombra da árvore sob a qual eu me abrigava.

O chamamento de minha mãe, assim como o aguaceiro que de repente desabava sobre minha cabeça, sempre me surpreendiam, ainda que esperasse por eles, da mesma maneira que esperava pelo cheiro da comida que vinha da cozinha, o sabor daqueles temperos, a textura dos alimentos cozidos com lentidão e paciência, a fogo baixo. Nessa aquarela de tons suaves havia lugar para os amanheceres sem pressa, para o deslizar milimetrado do orvalho em cada folha, para o relógio escorrendo os minutos, avisando que cada um deles duraria horas. Ainda não tinha chegado o tempo da sofreguidão, das urgências e das mentiras. O mundo ainda era meu e se deixava contemplar.

 




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19 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética aquarela, mundo, vida

              
            
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