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28 de abril de 2016

O menino, seu avô e o livro de capa dourada

avôEra uma lei na família: ninguém deveria interromper o vovô quando, após o almoço, ele se fechava na biblioteca para ler, apartado do vozerio das tardes de domingo. Eu o olhava com calado respeito quando, finda a refeição, ele se levantava, sorria a todos e dizia com a voz grave e mansa: Agora eu me retiro. Peço licença a todos. Apoiava-se na bengala e seguia pelo corredor a passos lentos, mas firmes. Aos olhos de um menino como eu, meu avô era um gigante e parecia carregar o mundo nas costas, com altivez e solenidade. Meu avô era um cavalheiro.

Numa dessas tardes, entediado com as brincadeiras de sempre com os primos e irmãos, atrevi-me a descumprir a regra familiar para saciar minha curiosidade. Ao ver minha cabeça timidamente inclinada na fresta da porta entreaberta e meus olhos acesos desvendando o desconhecido, vovô fechou energicamente o livro que estava lendo. Fez um gesto de impaciência e me mandou que entrasse de uma vez. Fiquei em pé perto da enorme estante que forrava uma das paredes, com os olhos fixos no livro de capa dourada que ele segurava no colo e acariciava com cuidado.

— Você gosta de ler?, perguntou. Assenti com a cabeça. Olhou para o livro e completou: Quando eu não estiver mais aqui, esse livro será seu. Mas agora não adianta, você não iria entendê-lo.

Quarenta anos depois tomei posse do livro, junto com outros objetos que faziam parte da herança de meu avô. Herdei dele também o costume de me isolar após o almoço dos domingos. Digo a todos que vou descansar um pouco e fecho-me na biblioteca. Tiro da estante o livro de capa dourada e sento-me na poltrona perto da janela. Acaricio a lombada, os quatro ângulos do volume, e sinto, de novo e mais uma vez, o cheiro de suas trezentas páginas em branco.

 




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