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3 de fevereiro de 2019

Menino

Brincar com meu avô era o que eu mais gostava, a melhor parte do dia. A gente costumava tirar o nariz um do outro e depois colocava de volta, ele falava “agora tô respirando de novo” e eu ria. O “pedra, papel, tesoura” decidia quem iria varrer o chão da cozinha depois do almoço. O mais divertido era quando chovia e a gente ficava atrás do vidro embaçado da janela brincando de “vejo uma coisa amarela, o que é?” ou “vejo uma coisa azul, onde tá?”. Eu gargalhava quando ele dizia “vejo uma calcinha vermelha, de qual moça?” e minha mãe dava bronca nele por ensinar porcaria pra um menino de cinco anos.

Em algumas brincadeiras meu avô escondia o rosto com as mãos, dizia “vovô sumiu” e desaparecia da minha frente. Não era como os outros avós, que esses eu sabia que estavam só tapando a cara. O meu avô sumia de verdade mesmo. Então minha mãe tinha que sair pelo bairro feito louca, perguntando pra todo mundo se alguém tinha visto ele por aí. Quase sempre ele estava no bar do seu Quim, jogando porrinha com os outros velhos. Ou então a gente tinha que esperar ele voltar quando tivesse vontade. E ele sempre voltava com uma nova brincadeira, igual o dia em que inventou a estátua. Minha mãe trouxe ele do bar do seu Quim puxando ele pelo braço, e estava muito brava. Falava sem parar, que você me mata com essa mania de fugir, que você já não tem idade pra se comportar como uma criança, que belo exemplo o seu neto vai ter, que eu tenho mais o que fazer na vida pra ficar te buscando em mesa de boteco, que um dia você vai me enlouquecer, olha só como estou tremendo, que um dia eu vou ter que tomar uma decisão azeda, mas não vai ter outro jeito. Aí meu avô piscava o olho pra mim e parava o corpo numa posição engraçada, o braço levantado. Eu fazia igual, e a gente ria. Minha mãe continuava falando com a estátua, e a estátua nem respondia. Como era engraçado o meu avô!

Ontem minha mãe disse que teve que tomar uma decisão azeda, mas que tinha sido melhor pro meu avô. Ele iria morar em outro lugar, numa casa grande junto com outros avós. Eu não gostei. Não teria mais com quem brincar. Minha mãe não sabe fazer estátua, diz sempre que está ocupada. Quando meu avô veio se despedir de mim, eu fiz a estátua e não me mexi. Não quis dar o beijo de despedida nele porque não queria que ele fosse embora. Ele falou baixinho no meu ouvido “vejo um menino muito especial, que mora no meu coração, onde tá?”. Só olhei quando ele atravessou o jardinzinho da frente, levando o penico e o carrilhão debaixo do braço.

 




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3 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos avô, engraçado, mãe, menino

               
              
            
                

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