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24 de outubro de 2018

Método

Uma injeção de xilocaína e ele começou a inchar. A cor de sua pele, antes bege, foi adquirindo um tom arroxeado, que escurecia mais e mais a cada minuto. No auge da convulsão, ele respirava com dificuldade, abrindo a boca para conseguir ar. Arqueava o corpo para frente e para trás e, não estivesse com as mãos e pés atados, teria se atirado sobre nós. Meu avental branco ficou sujo com suas secreções. Para contê-lo e diminuir o inchaço, fizemos um pequeno talho na altura de seu pescoço e ele murchou como um balão que perde o gás. Enfiamos sua cabeça num barril d’água até que se acalmasse. Estávamos perplexos com sua resistência. O chefe da equipe ordenou que jogássemos sal amargo sobre ele, e o efeito foi desastroso: os gritos que vieram de seu estômago atordoou a todos, apesar da mordaça. Depois de instantes ele fez silêncio, o corpo duro. Ficamos parados, olhando-o, algo aliviados. Foi domado, finalmente. Decidimos limpá-lo e secá-lo bem antes de colocá-lo na caixa. Eu mesmo grudei a etiqueta MANUTENÇÃO URGENTE na parte superior da tampa e o enviamos para outro setor. O chefe fez o sinal da cruz sobre o próprio peito e comentou, limpando o suor da testa, “esse foi difícil, hein?”.

 




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24 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos gritos, método, pele, resistência

               
              
            
                

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