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15 de outubro de 2017

Meu nome é Túlio

Saltava à vista de todos que Sarita e eu não éramos irmãos. Ela tinha uns olhos azuis enormes, que ficavam ainda maiores considerando sua cara magra e cheia de fome. Mesmo com a poeira da rua, que não desgrudava de seu pelo branco, ainda assim ostentava um ar de alguma elegância, ao contrário de mim, tosco, de andar alquebrado e cabisbaixo, um pequeno vagabundo morto de medo.

Costumávamos dormir grudados um no outro, protegendo-nos do frio, da chuva e dos estranhos, debaixo de pedaços de papelão que os lixeiros se esquecem de recolher. Foi numa noite assim, gelada, que mamãe nos descobriu. Também era óbvio que não era nossa mãe. Ela vivia numa casa e nunca tinha passado fome, mas apresentava um olhar tão perdido e tão triste quanto o nosso.

As lembranças foram embora de minha cabeça, mas, se de vez em quando sonho com aqueles dias, corro desesperado, gemendo e latindo, sem me mover do tapete. Mamãe então me acaricia atrás da orelha e diz “shh” em voz baixa. Com esse som, e o doce miado de Sarita, volto a pegar no sono. Meu nome é Túlio.

 




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15 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos irmãos, lembranças, mãe

               
              
            
                

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