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13 de março de 2017

Meu primeiro romance

Cumprindo a enfadonha rotina de todo dia, saí de casa à mesma hora e entrei na estação Prepare-se do metrô. Na plataforma, posicionei-me cautelosamente antes da linha amarela, não queria engordar estatísticas de acidente. Já no trem, ocupei um lugar perto da janela e tirei da mochila o exemplar de O Fantasma de Canterville. Estava pronto para a viagem. Era bastante cedo e o chacoalhar do vagão provocou sonolência em mim. Acabei vencido pelo torpor e fechei os olhos por uns segundos.

Acordei agitado, com medo de ter perdido a parada de destino. Mas não, vi que ainda estava na estação Surpreenda-se. Olhei em volta e algo chamou a minha atenção: o homem sentado à minha frente. Ele usava um paletó comprido, completamente fora de moda, o cabelo muito preto repartido ao meio e um pequeno e bem cuidado bigode. Caramba, pensei, esse sujeito é a cara do Poe. Baixei os olhos para o livro mas não pude deixar de olhá-lo de vez em quando. Numa dessas olhadas percebi que o homem que estava a seu lado, com barba e olhar intenso, era parecidíssimo com Cortázar. Era só o que me faltava, o Cortázar!, sorri por dentro. Vi que ele brincava com um cigarro apagado entre os dedos, aguardando o momento de sair da estação para acendê-lo.

Achei tudo uma grande e divertida coincidência e passeei os olhos pelos quatro cantos do vagão, mas nada mais me pareceu extravagante. Voltei a me concentrar no livro e o trem chegou à estação Alegre-se. As portas se abriram para que entrassem as pessoas que estavam na plataforma. Justo quando soou o apito de fechamento, uma bengala se interpôs entre as duas metades, tateando o chão. O homem cego entrou no vagão e eu me levantei imediatamente para lhe dar lugar, mas algo inusitado aconteceu e me fez jogar o corpo de volta no assento: parecia Borges, em pessoa, carne, osso e olhos esgazeados. Não é possível!, eu quase falei alto.

Estão todos aqui!, concluí, maravilhado, olhando em volta. As dezenas de escritores e escritoras que estiveram comigo ao longo desses anos entravam e saíam do metrô como se fossem trabalhadores a caminho do escritório, sonolentos, mal-humorados, apressados, entediados, alguns folheando um livro, outros com o olhar perdido. Ali estava Bukowski, a duas cadeiras de mim, exalando enfado e segurando uma garrafa pequena de uísque. Dickens estava de pé na extremidade do vagão, olhando para a frente. Hemingway encostou-se à porta e examinava as unhas, absorto. Dostoiévski alisava a barba espessa e mostrava um ar preocupado, talvez tivesse muitas contas para pagar e nenhum dinheiro. E Machado, Graciliano, Adélia, Pessoa, Senhora Leandro Dupré, Clarice, Garcia Marques, Agatha, Quintana, Mistral, Rulfo, Rosa, Scliar, Josué Guimarães, Eça, Meirelles, Amado, Nélida, Alencar, Keats, Veríssimo, Shakespeare, Mário, Dalton, todos passavam diante dos meus olhos incrédulos. Eu procurava não me mexer, extasiado, sem saber se o que eu via era sonho ou não. Fosse o que fosse, que não acabasse nunca! Onde está Wilde? Não pude deixar de buscar Oscar Wilde com os olhos, afinal, era dele o livro que eu estava lendo quando comecei a notar essas estranhezas. Mas não o encontrei. E assim passaram as estações Lembre-se, Espelhe-se e Admire-se.

O serviço de som anunciou a estação Inspire-se, onde eu devia descer. Coloquei O Fantasma de Canterville de volta na mochila, levantei-me e fiquei perto da porta. No vidro, vi minha imagem refletida. Tenho um aspecto terrível, descuidado, envelhecido, a barba por fazer, sou mesmo uma figura muito pouco elegante, pensei, entristecido. Veio-me de imediato uma ideia à cabeça: um espelho — não, um quadro, melhor um quadro — que pudesse absorver todos os defeitos e a velhice de um homem, enquanto ele permaneceria jovem e belo para sempre. Pareceu-me um excelente ponto de partida para o livro que há anos penso em escrever. Será um romance. Pensei até no nome do protagonista: Dorian. Sim, ele poderia se chamar Dorian Gray, que é um ótimo nome para um personagem.

A porta do metrô se abriu e eu lancei um último e amoroso olhar para aquela gente extraordinária dentro do trem. Saí do vagão assoviando, pensando em como seria o primeiro capítulo do meu primeiro romance.

 




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    • Obrigado, Rachel, pela leitura e comentário. Sabe que você tem razão? Talvez seja mesmo uma crônica, tal o tom informal e cotidiano com que contei a história. Obrigado pela dica. Abraço.

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