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10 de março de 2016

Meus fantasmas

fantasmasMeus fantasmas não são nada originais: sempre me visitam de madrugada, durante o silêncio ensurdecedor da cidade, em que a solidão, para os insones, é tão palpável quanto insuportável. Quando eram vivos, meus fantasmas devem ter visto muito filme B de terror e agora, na condição de fantasmas, teimam em repetir os mesmo clichês. Entram pela janela entreaberta, balançam cortinas, rangem portas, produzem sons de passos nos outros cômodos da casa, giram maçanetas.

Eles sempre começam a tarefa de me assombrar pela sala: riscam o assoalho, reviram a estante de livros, abrem e fecham janelas com estrondo. No corredor, entortam os quadros das paredes. Trocam os móveis de lugar, fazem murcharem as plantas, desarrumam os tapetes. Quando entram em meu quarto, sempre me encontram sentado na cama, abraçado a meus joelhos. Não grito nem choro. Olho-os com calma e serenidade, um a um. Eles dançam pelo cômodo, se penduram nos lustres, riem da minha cara, desarrumam meus lençóis, reviram as gavetas. Quando se cansam, sentam-se todos na cama ao redor de mim e um deles aproxima seu rosto do meu. Com raiva, me xinga, maldiz minha vida covarde, minha existência insignificante, minha ordinária humanidade, meu ser mesquinho e velhaco, debocha de meus arrependimentos, ironiza meu desejo de não errar mais, enumera minhas fraquezas. Sinto seu hálito de poeira bafejar meu rosto, mas não tenho forças para me afastar. E assim como vêm, vão aos poucos embora, entre risinhos de desdém e muxoxos de escárnio.

Quando o ruído dos meus fantasmas cessa, começa o meu: um choro infantil, um tremor no corpo inteiro que faz a cama balançar, um grito de dor que sai da minha garganta e gruda nas paredes. É assim todas as madrugadas, quando a cidade adormece e não há para onde escapar. Sei que amanhã eles voltarão a me visitar, voltarão para malfadar minha vida e me encontrarão aqui, sobre a cama, engolindo o medo que em seguida vomitarei.

Porque os meus medos também não são originais. E eu tampouco sou. Como meus fantasmas.

 




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10 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos fantasmas, madrugada, medo

              
            
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