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14 de dezembro de 2016

Microcosmo

Coloco o capacho na entrada do prédio. Hoje é quinta-feira, dia de limpar as escadas, mas antes tenho que despachar o lixo na garagem. Espero o elevador, que sempre demora, porque há muitas crianças neste edifício e elas se divertem apertando os botões de todos os andares. Os pais deixam, fazer o quê? As portas se abrem, ocupado, mas entro assim mesmo. Os do sétimo estão com seu mascote na coleira, um cachorro enorme que mais parece um pônei de pelo branco e olhos negros e inquietos. Eu vou carregado: quatro sacos de lixo — plástico, papel, vidros, orgânicos, tudo separado, que é preciso cuidar dessa coisa de meio ambiente. Um barulho, um tranco e o elevador para. Ninguém fica nervoso lá dentro. Eu olho e sorrio para o quase-pônei. O menino do oitavo, cinco anos, começa a gritar para chamar a atenção. Seu pai não dá importância. Uma hora e meia e ninguém aparece pra tirar a gente de lá, acho que o Adeílson foi consertar alguma coisa no 46. O lixo começa a cheirar mal, mas eu não posso fazer nada, quem criou esse lixo foi essa gente que está aqui, do meu lado. Até que enfim, o rapaz da manutenção chegou, abriu as portas do elevador e todo mundo saiu. Na garagem, deposito os sacos de lixo cada um na sua lixeira. Vou até a entrada do prédio pra fumar um cigarro e respirar. Começa a garoar, coisa mais besta, não é tempo de garoa agora. Na rua, os carros e as pessoas passam com pressa. Noto que a pitangueira do outro lado da calçada está carregadinha. Tomara que dê pra comer alguma pitanga antes dos passarinhos. Hoje é quinta-feira, dia de limpar as escadas. Entro.

 




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