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15 de março de 2019

Minha alma, meu cão, minha calma

Neste armário guardo minha alma. Entre paletós, camisas e calças repousa, num cabide só seu, lavada e passada, a alma que é minha. É uma coisa preciosa, única, e por essa razão só a levo comigo em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida, é artigo que não se dá, não se empresta, não se esquece. Se se quebra, não há outra.

Só vou com ela a lugares aonde não se deve ir sem alma. À literatura, por exemplo. A um roseiral, atraído pelo perfume. A um copo de bom vinho, erguido em brinde quando os olhos e a língua aplaudem meu bom gosto para bebidas e minha capacidade de reunir amigos. Nesses eventos minha alma sempre está comigo.

É diferente de meu tempo de criança, quando não ia a nenhum lado sem alma. Não a tirava de mim nem para dormir. Eu a deixava voar junto com os anjos que surfavam, em bandos barulhentos, o céu da minha infância. Era minha companhia constante nos brinquedos, nas descobertas, nos espantos, nas felicidades. E, quando a noite descia, pedia a Deus por ela, que a cobrisse de cuidados, que não se esquecesse dela. E Deus, como mais um membro de minha família, dizia que eu não me preocupasse, que ele estaria sempre de olho em minha alma.

Hoje em dia quase não saio com minha alma para a rua. Me apavora pensar que as pessoas, ao me verem com alma, vão me enxergar até pelo avesso e descobrir tudo sobre mim, ou então que o vento e a chuva vão arruiná-la. No estágio da vida em que me encontro agora, meus anjos já viajaram para longe, em busca de outras infâncias, e Deus morreu como morrem todos os avós entre dois pores de sol.

Mas não posso negar que, quando ponho a alma, ganho em profundidade e brilho. Fico mais brilhante que o Sossego, mais transparente, mais espiritual. Vestido com minha alma, ganho altura e me dilato e me expando em todas as direções até deixar para trás a última estrela que contemplei. Sossego é o meu cachorro.

Ocorre que, de carona nesse momento de expansão, quando, com minha alma vestido, me preparo para vencer distâncias, cruzo meu olhar com o olhar do Sossego, sentado e algo melancólico perto da porta de entrada, quieto com sua alma peluda de cachorro — é justo nesse instante que me dá não sei o quê de tristeza por deixá-lo ali, sem ninguém com quem conversar ou para quem latir. Então dou meia-volta e subo até meu quarto, abro o armário e devolvo minha alma ao cabide de sempre. Aí, sem minha alma posta, por não ser necessária agora, assovio para o Sossego e os dois saímos para passear.

 




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15 de março de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética alma, cachorro, cão

               
              
            
                

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