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9 de janeiro de 2015

Morrer na televisão

corpo

O corpo do menino atropelado estava caído no asfalto, sob um cobertor. Em volta dele as pessoas se aglomeravam, aguardando a chegada da polícia e da ambulância. O sol do meio-dia cozinhava as cabeças que se erguiam para olhar o resultado de mais uma imprudência no trânsito da cidade. O motorista sumira sem prestar socorro, mas teve gente que declarou ter visto a placa do carro.

Ajoelhada ao lado do corpo franzino do garoto, uma mulher chorava e se dirigia à multidão: “É meu filho! É meu filho!”. Chegaram o repórter da televisão e o cinegrafista, câmera no ombro. O jornalista conversou com as pessoas ao redor, colheu depoimentos, fez perguntas, estendeu o microfone para captar as respostas. Quando quis se aproximar da mãe do menino, o repórter foi impedido por todos, que imploraram que se afastasse e a deixasse em paz. A mulher, porém, vendo que ele deixava o local, gritou, ainda com lágrimas na voz:

– Ei, você, espere aí. Pode me entrevistar. Pra que canal de televisão você trabalha?

 




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