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14 de novembro de 2017

A mulher que não mente

Tenho uma amiga e ela está triste. A cidade inteira se levantou contra ela: “fingida”, “dissimulada”, “mentirosa”. A mentira, quando descoberta, sabemos todos, é uma coisa horrível. Expõe o mentiroso ao escárnio público, revela fraquezas, propicia linchamento moral, turva o caráter. Fui ter com minha amiga, eu precisava saber. Perguntei.

Ela olhou nos meus olhos com seus olhos doces e me disse, também muito docemente, sem titubear:

— Não, meu querido amigo, eu não tive a vida que todos têm ou tiveram ou terão um dia. Eu não. O mundo de onde venho é outro. Nunca andei pelas estradas, não há na face da Terra homem algum que tenha encostado sua mão em mim e o sol nunca lambeu minha pele.

Assim ela me disse, com toda a sinceridade de que era capaz. E ela nunca mentiu para mim. Eu olho no fundo dos olhos de minha amiga e procuro, mudo, explicações. Seus olhos são límpidos e não há ali nenhuma sombra ou mistério nem vestígio algum de inverdade.

Volto para casa pensativo, cabisbaixo, confuso, trazendo na memória o tom acobreado de sua pele, resultado de indubitável exposição ao sol. Também me recordo de seus pés descalços, cobertos pela poeira de muitas estradas. E o que posso pensar daquela criança em seus braços, sugando um de seus seios?

 




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14 de novembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos amiga, inverdade, mentira, mulher, verdade

               
              
            
                

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