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24 de agosto de 2016

A mulher sem alma

alma1Disseram tantas vezes “Você é uma mulher sem alma”, que ela ficou na dúvida. Não se lembrava de ter tido ou sentido no corpo ou na mente algo parecido com aquilo a que se referiam.

“O que é alma?”, perguntava ela, curiosa e aflita.

“Está no seu interior, dentro do peito”, respondiam.

“Todo mundo tem uma?”, ela, cética.

“Claro que tem, não se vive sem alma”, concluíam.

Mas ela continuava sem entender o que queriam dizer. Uma tarde sentou-se na varanda para contemplar o pôr do sol e emocionou-se com a explosão de cores no firmamento. Concluiu que aquele espetáculo vibrante era a alma do céu, e que nada poderia ser mais bonito e arrebatador. Voltou a pensar em sua própria alma, tinha que ter uma, não era possível que não tivesse. Resolveu intensificar a busca; se todos têm, por que ela não teria?

Abriu a boca e meteu a mão; ultrapassou a úvula e foi enfiando traqueia abaixo, chegou ao tórax e mexeu os dedos, fuçando nos órgãos que lá estavam. Nada, nenhum vestígio, nenhum sinal. Definitivamente, ela não possuía alma.

Resignou-se e aceitou que era mesmo uma mulher desalmada. Pelo sumiço, responsabilizou as fibras e os alimentos integrais que tinha ingerido durante a vida toda para regular o intestino e manter seu corpo em forma. A alma, certamente e sem que ela percebesse, tinha desaparecido num desses processos de eliminação de substâncias indesejadas. Para compensar a falta de alma, considerou a possibilidade de adquirir um cachorrinho. Já sabia o nome que daria a ele: Alma.

 




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