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3 de dezembro de 2018

Mutante

Francisquinho nasceu um ano depois de começarem as chuvas. Nós as chamamos assim, “as chuvas”, como se tivessem algo a ver com o presente líquido que eventualmente recebíamos do céu. Não tinham, e isso logo foi percebido por todos. Começaram, e nunca mais deixaram de encharcar a terra e golpear os muros e paredes da cidade. Olhávamos para o alto esperando uma trégua, e ela não vinha, então nos resignamos a não ver além de nós mesmos. Tudo ficou cinza, e só o estalo de algum raio nos devolvia, por um instante, as cores quase esquecidas do mundo. Os campos se converteram em lagos improdutivos e as ruas foram tomadas por diferentes espécies de anfíbios. A humanidade estava desaparecendo.

Gostamos muito do Francisquinho, apesar de sua pele escorregadia e fria, com algumas escamas nos pés, talvez por ser a única criança nascida no povoado desde que as chuvas começaram. É enternecedor vê-lo se movimentando na rua, já familiarizado no meio do aguaceiro, empapado e de boca aberta para o alto, como se não quisesse perder nem uma das gotas que caem sem parar.

Ontem chegaram à cidade outras crianças iguais a ele, vindas de povoados próximos. Francisquinho e os novos amigos brincam juntos debaixo do temporal. Nem veem o tempo passar. Quando têm fome, devoram os insetos, os girinos e os peixinhos menores que encontram. Nós, do lado de dentro da casa, sob a proteção do telhado e das paredes, que por enquanto nos mantinham a salvo e secos, contemplamos da janela as crianças se divertindo no meio da rua. Contemplamos e, apreensivos, engolimos saliva, famintos e preocupados com o fim muito próximo dos mantimentos da despensa.

 




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3 de dezembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos água, chuvas, mutante, temporal

               
              
            
                

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