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10 de setembro de 2015

Na ponta da língua

LixeiraPercebeu naquele instante, quando levantou a tampa da lixeira para depositar o saco, que sua memória estava falhando. Há dias vinha esquecendo o nome das coisas. Algumas coisas. No meio do lixo, sem embalagem, reconheceu um ou outro absorvente com o sangue já seco, uma ou duas camisinhas usadas, restos de sanduíche e a imagem quebrada de alguma santa. Coisas que alguém, sem o menor cuidado, jogou nessa lixeira perdida entre a calçada e a sarjeta na frente de sua casa. Mas aquilo, o que era?

Não se lembrava do nome desse objeto que estava jogado lá dentro. Lembrava-se, isso sim, de que sua mãe usava essa coisa para lhe contar histórias quando ela era uma garotinha banguela. Seu avô fazia o mesmo: abria a coisa no meio e desandava a falar de princesas e príncipes e bruxas. Ela se lembrava de que ria muito, a boca desdentada. Tinha uma vaga lembrança de que essa coisa também servia para equilibrar a mesa da cozinha, que tinha uma perna mais curta que as outras.

Forçou a memória e conseguiu se lembrar de que sua bisavó tinha muito cuidado com uma coisa parecida com essa, que agora está na lixeira, toda imunda e rasgada. Ela dizia que essa coisa poderia fazer qualquer pessoa se sentir livre. Livre… livre… Como é mesmo o nome dessa coisa? Está na ponta da língua, mas ela não se lembra.

 




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10 de setembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos livre, livro, lixeira, lixo

               
              
            
                

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